Toinha, mulher livre: "É a minha festa", diz dona de bar de rock



Encontrar o Toinha Rock Pub pode ser um pouco complicado. Especialmente se você vem do Plano Piloto de Brasília, mas, mesmo para os moradores de Samambaia, como eu, o lugar não salta aos olhos. Fica em uma via paralela à Primeira Avenida Norte, recuado, sem letreiro, em um ponto pouco iluminado.


É provável que você saiba que chegou ao ver a aglomeração de gente na porta ou ao notar a luz fraca no interior, refletindo paredes vermelhas. É vermelho também o grande sofá que fica do lado de fora, bastante disputado nas madrugadas, quando terminam as apresentações no porão do bar.


Quando cheguei para entrevistar Toinha, em uma tarde de fevereiro, não havia aglomeração, nem luz, nem sofá. Mas não tive dificuldades para encontrar o lugar, porque conhecia bem o caminho. Desde 2016, quando fui pela primeira vez, minha introversão se encontrou ali. Ainda que eu não seja do rock. Gosto de conversar na parte de cima, pequena, intimista. Gosto de descer e assistir aos shows ao lado do pessoal alucinado pela música, camisetas de bandas, delirando com os covers como se fossem seus ídolos.


Já a Toinha é do rock, de corpo e alma. A dona do bar me recebeu vestindo uma camiseta do Ozzy Osbourne – Black Sabbath é uma das suas bandas do coração – e uma saia preta. Veio lá do fundo, pedindo desculpas pela bagunça. Ela e o filho mais novo, Alair, estavam lavando o bar naquela quinta-feira. Nos sentamos no sofá vermelho, que estava recolhido para dentro.


Eu queria saber quem era a Toinha. Queria saber como essa piauiense, pequena e frágil na aparência, tinha transformado aquela loja escondida e humilde, a trinta quilômetros da zona central de Brasília, em um point que atrai gente de todos os cantos do Distrito Federal. O sucesso e o prestígio que ela arrebanhou com o Toinha Rock Pub desembocaram no Toinha Brasil Show, um empreendimento bem mais ousado, que fica ali atrás do Park Shopping.


Essa casa de shows abriu as portas em 2018. Além das bandas cover, recebe atrações nacionais e internacionais. Já passaram por lá a banda escocesa Nazareth e o ex-vocalista do RPM, Paulo Ricardo. A condição sine qua non para Toinha se aventurar na casa de shows foi nunca, jamais fechar o bar de Samambaia. Ela cuida pessoalmente dele, atendendo os clientes atrás do balcão, enquanto os filhos se dedicam mais ao Toinha Brasil Show.


“Isso aqui é minha vida. É a minha festa, a minha realização. O que eu não vivi, o que não me deixaram viver há 20, 30, 40 anos, eu estou vivendo tudo isso hoje”, comenta a empresária.


Nem Toinha sabe direito como, em meio às voltas que a vida dá, conseguiu viver de rock. Quando conversamos sobre seu passado, parece que tinha de ser, e, ao mesmo tempo, ela desafiou tradições e desmentiu probabilidades.


Anjos Negros


Antônia Francisca de Lima nasceu em 1966 em Água Branca, uma cidadezinha com menos de 20 mil habitantes a 100 quilômetros de Teresina. Ainda criança, escutava rock no rádio e o som fazia pular seu coração.


“Com uns cinco, seis anos, eu já ouvia muito Pink Floyd, Nazareth e eu simpatizava com o som. Meu pai tinha um rádio em casa e sempre ligava e eu me identificava bastante com essas músicas. O som, o ritmo, o jeito deles me chamava muita atenção. O estilo, a rebeldia, as atitudes”, conta Toinha.


A rebeldia não quadrava com o ambiente rígido da casa. Toinha e mais uma irmã eram as únicas mulheres entre dez filhos. A mãe acreditava que uma mulher deveria ser “uma boneca”, conta a dona do bar, e, ainda, viver para lavar, passar e cozinhar. “Meus pais eram muito autoritários, meus irmãos. Mas eu sempre dava uma volta em todo mundo”, diz, rindo, a piauiense.


Nas ruas de Água Branca, longe dos olhares dos irmãos, do pai lavrador e da mãe dona de casa, ela vivia sua história de amor com a liberdade. “A gente tinha uma matinê em um clubezinho que se chamava Clube do Ipê. Eles faziam umas matinês no final da tarde, quatro horas, sempre no domingo. E tinha agosto, que é época de festejo lá. São três dias seguidos. E a gente sempre participava”, conta ela, que, apesar de roqueira, gostava de brincar o Carnaval.


“O Carnaval era muito forte lá. Inclusive, até participei de um bloco. Tinha a maior admiração, porque era o bloco que chamava mais a atenção, o bloco das pessoas mais poderosas, mais fortes, mais cheias de atitude, que se chamava Anjos Negros, entendeu? A fantasia deles era branco, azul e preto. Tudo nesse estilo, com prata, sabe, assim, uma coisa bem ... então, para entrar nesse bloco, tinha que ter atitude. Eu saía nesse bloco”, conta, orgulhosa.

Como as mulheres das telenovelas


O preto é a cor favorita de Toinha. E isso vem de longe. Ela recorda uma ocasião em que ganhou da mãe um vestido vermelho de crochet. “Quando ela mandou experimentar, eu falei assim: ‘Não poderia ser preto?’ e ela ‘A gente usa preto como luto’ e eu disse: ‘Mas minhas roupas não vão ser de luto. Pra mim, preto vai ser preto’. E aí foi onde eu comecei. Se ela deixasse ir numa loja escolher, eu só ia no preto. Acho muito elegante, muito charmoso. Tem poder, tem vibração dependendo de quem está dentro do preto, entendeu?”, comenta.


A relação de Toinha com a mãe era até boa. “Minha mãe era uma mulher muito tranquila”, conta. No entanto, diz, a mãe não aprovava sua maneira de ser. “Ela não concordava com as minhas atitudes, com meu jeito de gostar de viver na rua, de querer trabalhar antes do tempo. Eu gostava muito de estudar e era muito curiosa de aprender as coisas, saber das notícias, me influenciar por novelas. Eu contava o capítulo da novela todinho. Eu era um gravadorzinho”.


As personagens femininas das novelas fizeram nascer em Toinha o desejo de ser um outro tipo de mulher – diferente da mãe e da maior parte das mulheres de Água Branca. “Eram mulheres que iam à luta, brigavam pelos seus direitos. Coisa que ao meu redor eu via muito pouco. Então, eu me inspirava nas personagens que eu via na novela. Em Fernanda Montenegro. Adorava Rita Lee, o estilo da Rita Lee. Muito doida. Eu achava muito lindo e admirava a coragem dessas pessoas. Da Cássia Eller”, enumera a dona do bar.


Antes de a mãe morrer, Toinha recebeu dela o reconhecimento por ter se tornado uma dessas mulheres corajosas. “A última vez que eu estive com ela, ela me parabenizou por eu ter sido tão guerreira, lutar, ter um negócio desses. Conseguir fazer o que eu sempre gostei, conviver com esse mundo que eles tiraram um pouco de mim. Ela falou que achou que ia conseguir me afastar [do rock]. Mas não, fez foi me jogar mais lá dentro. Porque tudo que as pessoas questionam, você vai à luta e passa a gostar mais”, opina.


No Distrito Federal, o voo


Em 1990, Toinha tinha 24 anos e dois filhos. O primeiro, Fábio, de um namorado que conheceu em uma viagem à praia. Assumiu sozinha, enfrentando o preconceito da cidade. O segundo, Alair, teve com um marido com quem casou por insistência da família. Separou-se um ano depois. Ela criava os meninos, enquanto trabalhava como frentista em um posto de gasolina em Água Branca e cursava o Ensino Médio. Foi quando um dos irmãos propôs que ela viesse morar com ele em Taguatinga, Distrito Federal.


“Eu fiquei meio balançada, porque eu nunca tinha saído do Piauí. Mas eu tinha o desejo de conhecer o mundo. E aí eu abracei a ideia. Eu fui morar com ele, acho que morei 10, 11 meses, por aí. Mas eu virei a prisioneira. Ele não me dava liberdade de um minuto. Eram 24 horas de olho. Porque eu tinha que ajudar a cuidar dos filhos dele, ajudar a cuidar da casa”, lembra Toinha, que no início apenas estudava e dependia financeiramente do irmão.


Um dia, não deu mais. Aproveitou uma ida do irmão-carrasco para Goiânia e fugiu para se abrigar na casa de outro irmão, na Candangolândia. “Fui pedir socorro pra ele. Aí, com três dias, arrumei um trabalho. O outro chegou de Goiânia, foi me buscar, foi uma briga danada. Mas aí ele não impediu que eu trabalhasse. Arrumei emprego em uma pizzaria lá no Plano Piloto, na 411 Sul. Era secretária. Trabalhei sete anos”, conta.


Ao longo desses sete anos, muita coisa mudou na vida de Toinha. Os pais vieram do Piauí, trazendo os dois filhos, que tinham ficado em Água Branca com os avós. No início, a dona do bar foi viver com eles. Mas logo foi morar sozinha, em um barraco no Novo Gama, Goiás, a cerca de 40 quilômetros de Brasília. Finalmente, em 1993, mudou-se para Samambaia – onde fica o bar.


Toinha conta que, após ir morar sozinha, pela primeira vez mergulhou de cabeça na liberdade. “Aí foi onde eu comecei a sair com os amigos. Eu ia muito no Guará, no Zezinho Carne de Sol. Tinha outro barzinho lá que eu não lembro o nome que tocava muito Raul, Legião”, recorda.

E veio o bar ...


Toinha foi levando a vida, sempre em rodas de amigos e cada vez mais apaixonada pelo rock. Depois que saiu da pizzaria teve mais dois empregos como secretária, em uma representação de ferros e em uma gráfica. Em 2009, foi demitida da gráfica em um corte de pessoal. Foi o começo de tudo.


“Eu estava há uns dois meses desempregada. E aí o Fábio [filho mais velho] já trabalhava e certo dia ele chegou pra almoçar e eu falei “Fabinho, vamos abrir um bar?”. Ele olhou pra mim, falou: ‘Abrir um bar?’. Eu falei: “É, vamos abrir um bar?”. Aí ele sorriu, foi almoçar e quando ele terminou de almoçar disse: ‘Vamos?’ e eu ‘Pra onde?’ e ele: ‘Uai, procurar o bar’”, lembra.


E foi tudo no improviso mesmo, conta Toinha. O espaço onde atualmente funciona o Toinha Rock Pub, na QN 208, estava para alugar. Ela e Fábio acertaram tudo com o dono e, com o dinheiro da rescisão do emprego, compraram todo o necessário. O nome da proprietária era um chamariz.


“Acho que foi três dias, a gente já abriu o bar. Na hora da discussão, qual o nome que bota no bar, ele [Fábio] virou pra mim e falou: ‘Vamos pôr Toinha, que a senhora é que é conhecida’. Eu sou muito conhecida, entendeu? Muito fácil de fazer amizade, sei lá, de comunicar. E aí a gente foi passando boca a boca: ‘Ó, tô abrindo um bar’. E aí, de repente, na sexta-feira, tinha um monte de gente aqui”, conta Toinha.


E veio o rock ...


Inicialmente, o bar era também uma distribuidora de bebidas. Mas os clientes queriam música. “Foi aparecendo um e outro, trazia um Van Halen, um Raul Seixas, a gente curtia muito Elvis. O pessoal ficava ouvindo, os amigos trazendo. E aí, de repente, menos de três meses, virou o point da cidade. A gente rapidinho tirou a distribuidora e os próprios clientes montaram o Toinha Rock Pub”, conta a empresária. Inicialmente, o som vinha só dos CDs.


Um amigo de Fábio sugeriu que começassem a receber shows e o palco foi preparado no subsolo. Na época, havia apenas fliperama, totó e mesas de sinuca no andar de baixo. Quem for hoje, ainda encontra essas relíquias. Outro mobiliário que está no bar desde os primórdios é a famosa Kombi.


“O meu pai usava muito, trabalhava com Kombi. Então, o Fábio aprendeu a dirigir numa Kombi. Quando a gente abriu, ele foi em um ferro-velho procurar uns negócios e viu ela. E ficou louco, botou preço, o cara vendeu e aí ele falou que ia ser a marca do bar. Ela era inteira. Aí foi rodando, a gente querendo espaço, acabou que ficou desse tamanho”, conta Toinha apontando para a carcaça da parte da frente da Kombi, com a janela encaixada em uma abertura na parede que dá para a cozinha do bar. É dessa janelinha que saem os hambúrgueres e porções para os clientes, como se estivessem saindo de dentro da Kombi.


Pergunto como surgiu o projeto do Toinha Brasil Show, a casa de shows no Guará, que também atrai muito público. “O Toinha Brasil Show também foi no chute. Porque, tipo assim, falta isso no Distrito Federal. Então, muitas coisas que a população do rock’n’roll quer, tinha que buscar lá fora. Devido ao tanto de tempo que a gente trabalhava, já tinha uma noção de que a cidade precisava e veio essa atitude, que foi um desafio muito grande”.


Toinha diz ainda que o desafio se repete todos os dias. “Foi um desafio enorme e continua sendo. Não é porque já abriu, que já teve algumas histórias, que não continua sendo um desafio. Aqui, o Toinha Rock Pub, também continua sendo um desafio. E lá é uma coisa bem maior”, comenta.

Mulher livre


Hoje, Toinha mora com o filho mais novo em um condomínio no Engenho das Lages, área rural do Distrito Federal. São contrastes: gosta do agito do bar, mas também da tranquilidade do mato. “Tem muita paz, muita tranquilidade. A gente tem tempo de pensar, de descansar e de tomar decisões mais tranquila. Com planejamento. Porque, tipo assim, eu nunca planejei nada, mas, ultimamente, estou fazendo mais isso. Primeiro pensa, depois faz”.


A empresária não pensa em namorar, muito menos se casar. “Não tenho vontade, não tenho solidão, não vejo ninguém que me atrai”, diz. Lembra que a experiência de ser casada não foi boa. Acredita que alguém que entrasse em um relacionamento com ela teria dificuldades para aceitá-la da maneira que é.


“Eu tenho um gênio muito forte, as pessoas não me aceitam, não. Pelas minhas ideias, meus ideais. Pelas músicas que eu curto. Tem pessoas que acham que eu sou ‘demônica’. Por causa desse cara [aponta para a camiseta de Ozzy Osbourne]. Porque ele já mordeu morcego, porque ele é louco. Porque as pessoas acham que eu posso ser igual ou pior que isso.”


Pergunto se Toinha se considera feminista. Ela responde que não. “Porque, tipo assim, eu sou mais na minha. Mas eu gosto muito de observar. Tem pontos que eu concordo e tem pontos que eu não concordo [no feminismo]”. Pergunto se ela se considera uma mulher livre. “Livre. Eu faço o que quero, a hora que eu quero, do jeito que eu gosto. Não aceito ninguém me dar ordens”.


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