Da Inglaterra para Samambaia: tem rugby na quebrada


CE Rugby Samambaia capacita professores nas escolas públicas - Divulgação/Facebook


Em minha busca por histórias interessantes em Samambaia, esta que vou contar agora me encontrou. Falando sério. Eu estava compartilhando no Twitter a matéria sobre a Toinha, quando um contato da minha cunhada marcou o Cauan. E aqui estou eu, uma negação em esportes, pronta para contar a história dele, que é uma história sobre rugby. Se fosse futebol, eu estaria mais familiarizada. O que não quer dizer grande coisa, como meu irmão pode atestar.

Antes de tudo, fiquei surpresa. Como o próprio Cauan comentou, o rugby tem uma pegada mais elitizada. Eu não tinha ideia dessa iniciativa em Samamba. Mas foi justamente querendo popularizar o rugby na quebrada que ele o irmão criaram o Clube Escola Rugby Samambaia. A ideia era que fosse um time, como o Brasília Rugby. Mas ainda não virou time. Espera aí que eu já conto.

Primeiro, queria falar brevemente sobre o momento que estamos vivendo. Era para eu sair para conhecer essa história. Ver de perto, fotografar. Mas a epidemia do novo coronavírus virou pandemia e precisamos ficar em casa. É por isso que, dessa vez, a entrevista foi por telefone e WhatsApp. Vai ser assim até passarmos esse pedaço difícil. Vou continuar contando histórias, na medida do possível. E aproveitar para falar também sobre como a pandemia está afetando as pessoas com quem converso e seus projetos. Voltemos à história que começou no Twitter.

No perfil do Cauan Felipe Amorim, 29 anos, a primeira informação na bio diz que ele é cria da Samamba. Nasceu em Taguatinga e morou lá até os 10 anos de idade, mas considera Samambaia seu lar. Ele tem carinho pela cidade e vontade de criar coisas legais por aqui. “Tem gente que não entende. Mas eu cresci aqui, minha história é aqui e minha luta é para mudar a Samambaia. Esse lugar merece. Todo lugar merece, na verdade. Que tenha mais gente defendendo mais lugares também”, comenta.

Além da Samamba, há outra paixão que o Cauan alardeia por aí: o rugby. Nas fotos dele nas redes sociais, ele está segurando uma bola de rugby – parecida com a bola de futebol americano. É um esporte jogado em um campo gramado, parecido com o de futebol. Os jogadores podem correr com a bola nas mãos e também chutá-la. Você pode saber mais sobre as regras aqui.

A história do Cauan com esse esporte, nascido na Inglaterra em 1823, começa em 2009. Nessa época, ele e o irmão treinavam no Brasília Rugby, um time do Distrito Federal. Os treinos aconteciam no Lago Sul, um dos bairros mais ricos do DF. Atualmente, a equipe treina no Centro Universitário de Brasília (UniCeub), na Asa Norte.

Cauan Felipe Amorim, diretor-executivo da ONG - Arquivo pessoal/Facebook

Os meninos adoravam o rugby, mas manter a rotina de treinos não era fácil. “A gente tinha que levantar de madrugada. Historicamente, o rugby é um esporte muito elitista. Todo mundo [com quem treinavam] era do Plano Piloto, Lago, essa região. Aí a gente ficava pensando, por que não trazer o esporte para cá [Samambaia]?”, conta. Em 2014, finalmente começaram a colocar a ideia em prática.

“Consegui convencer dois diretores do Brasília, que ajudaram. A gente veio com a ideia de montar um time, no começo. Só que, quando colocou no papel, viu que não tinha estrutura na cidade. Quero dizer transporte, profissionais qualificados”.


Diante da impossibilidade imediata de viabilizar o time, decidiram ir comendo pelas beiradas. Criaram a ONG Clube Escola Rugby Samambaia, da qual ele é diretor-executivo. “A ideia era formar pessoas que um dia pudessem trabalhar com rugby. A gente começou a visitar escolas [públicas] e a formar professores para trabalharem com os alunos”. O Ensinando com Rugby foi o primeiro projeto da ONG e deu bastante certo. De 2014 para cá, 450 professores foram capacitados para ensinar rugby em escolas de Samambaia, Taguatinga, Ceilândia e Recanto das Emas.

O tempo foi passando e outros projetos surgindo. Outros dois em parceria com escolas públicas são o Rugby Integral e o Rugby pela Igualdade. O primeiro usa o esporte como ferramenta para abordar outros temas no contraturno escolar: segurança alimentar; meio ambiente; ética e política; igualdade; história e saúde são alguns dos módulos de ensino. Já o Rugby pela Igualdade começou como um módulo do Rugby Integral e depois alçou voo solo. Também sob a ótica do esporte, o projeto aborda questões como racismo, igualdade de gênero, valorização da diversidade e bullying.

Essas iniciativas ajudaram Cauan a perceber que não dá para melhorar a comunidade onde se vive sem descer para a arena política. “Nós fazemos um trabalho de lobby, de brigar dentro do governo por políticas”, conta. Algumas vezes, o desejo de levar informação e consciência para a garotada esbarra no preconceito. O diretor-executivo da ONG se lembra de uma ocasião em que iriam a uma escola militarizada e houve pressão da Polícia Militar por discordar do conteúdo que seria apresentado. “A PM boicotou. A gente vai tentar levar conteúdo e recebe ameaça de militar".

Meninas treinando: ONG aborda questões de gênero nas escolas - Divulgação/Facebook

Há também projetos fora das escolas, como o Rugby na Melhor Idade, para conscientizar idosos e ajudá-los no combate a problemas como diabetes, hipertensão e osteoporose, e, ainda, treinos gratuitos para crianças e adolescentes. Como o rugby ainda é pouco conhecido, explica Cauan, uma estratégia da ONG é apresentá-lo associado a temas ligados ao esporte e à saúde em geral.

Mas, segundo ele, o sonho de montar um time de rugby em Samambaia continua vivo. Aliás, esse foi um dos projetos que a pandemia interrompeu. “A gente pretende oferecer um curso de captação nas escolas para peneirar e montar categorias de base. A gente já teve uma equipe de alto rendimento com patrocínio do Sest/Senat, mas era amadora. Será a primeira vez que vai ter um time profissional”, explica.


Para Cauan, o que mais tem pesado com a quarentena é a incerteza: ninguém sabe quando poderá voltar às atividades. “Estávamos abrindo uma produtora cultural que é fruto da ONG, que vai praticamente parar. Como estava no começo, tem pendências burocráticas que dependem de banco e cartório. Tinha um evento agendado de hip hop que estamos transformando em curso online sobre produção cultural. E estamos desenvolvendo um projeto de educação alimentar com a Escola Classe 121 [em Samambaia] para quando as aulas retornarem”, enumera.


Cauan, que não quer ficar parado, também está começando a gravar um podcast sobre gestão esportiva e prepara dois livros: um com histórias da ONG e outro sobre a chegada do rugby à periferia contada sob a ótica de crianças de 7 a 10 anos de idade.

Se você ficou interessado em ajudar o CE Rugby Samambaia a passar o período difícil da pandemia, o diretor-executivo diz que doações são sempre bem-vindas. Também é bem-vindo quem estiver interessado em trabalhar como voluntário ou em viabilizar projetos nas áreas esportiva e cultural. Dá para entrar em contato com o pessoal pelo e-mail falecom@rugbysamambaia.com.br ou via WhatsApp, pelo número (61) 98254 6552.

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